quinta-feira, 28 de abril de 2011

sábado, 23 de abril de 2011



Vejo o papel em branco,
 E imagino o teu rosto;
Ali pálido, o teu reflexo.
Sobreposto.

Márcio Santos

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Os Estatutos do Homem



Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.



Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.



Artigo III. 
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.



Artigo IV. 
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.



Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.



Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.



Artigo VI. 
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo
gosto de aurora.



Artigo VII. 
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.



Artigo VIII. 
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.



Artigo IX. 
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor. 
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.



Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.



Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.



Artigo XII. 
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.



Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.



Artigo XIII. 
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.



Artigo Final. 
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.



Santiago do Chile, abril de 1964



Thiago Mello

domingo, 10 de abril de 2011


Dê-me duas palavras e um par de asas...
O meu sapato e o teu vestido.
Quero voar sobre as casas;
Só voar faz sentido.

Márcio Santos

Breve,mas eterno



Hoje andando pela rua,num momento único,num mágico instante; peguei-me desenhando teu rosto numa espiral de fumaça,que vinha não sei de onde.E foi ali,numa esquina que deparei-me,num encontro fatal contigo.Foi nessa mesma manhã, naquele segundo singular,que pensei em mudar de direção,mas não consegui,não quis interromper aquela infinita beleza.
E descobri, meu bem;que um só instante,pode valer uma vida inteira.


Márcio Santos

Tenho dó das estrelas


Fernando Pessoa diz como  me sinto hoje:

Tenho dó das estrelas

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

terça-feira, 29 de março de 2011

José Saramago


"O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante 
de si próprio."


...


Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
De violetas se cobre…
De violetas se cobre o chão que pisas,
De aromas de nardo o ar assombra:
Nestas recurvas áleas, indecisas,
Olho o céu onde passa a tua sombra.